BLOG

Quando o trabalho ocupa tudo e ficamos para depois

Vivemos numa cultura que muito valoriza o Fazer.

Produzir. Entregar. Resolver. Crescer.

Ser ocupada tornou-se quase um símbolo de importância.

Mas, lentamente, quase sem perceber, o trabalho começa a ocupar mais do que o horário.
  - Ocupa o pensamento.
  - Ocupa a energia.
  - Ocupa a identidade.

O excesso de trabalho raramente começa como excesso. Começa com entusiasmo e com a sensação de que estamos a construir algo importante. Dizemos a nós próprias que é apenas uma fase, apenas um projeto, apenas mais um esforço.
Mas, sem percebermos muito bem quando aconteceu, a exceção transforma-se em padrão.

É neste momento que entramos no que podemos chamar de modo funcional. Acordar, responder, resolver, entregar, repetir. Os dias passam a ser organizados em função da produtividade e tudo o resto parece secundário.

O problema não está em trabalhar muito, mas sim quando deixamos de existir para além daquilo que fazemos. Quando a nossa identidade começa lentamente a confundir-se com a nossa capacidade de produzir.

E, cuidar da imagem não é vaidade.
É presença.

É parar alguns minutos e perguntar:
  - Como me quero sentir hoje?
  - O que preciso?
  - O que esta fase da minha vida me está a pedir?

Quando o trabalho ocupa um grande espaço, estas perguntas deixam de existir, e:

- Veste o que é rápido.
- Escolhe o que é prático.
- Decide em automático.

E, aos poucos, vai-se afastando da sua própria identidade.

Muitas vezes, o regresso começa de forma simples. Pequenos gestos que devolvem consciência ao quotidiano, como, preparar a roupa com calma, criar alguns minutos de silêncio antes de começar o dia, reservar tempo pessoal com a mesma seriedade com que se marcam reuniões. 

Quando voltamos a fazer este tipo de perguntas, recuperamos algo essencial: a capacidade de escolha.
O nosso valor não está apenas no que entregamos, mas também na forma como existimos no mundo, na presença, na visão e na forma como habitamos a nossa própria identidade.

Talvez por isso a pergunta mais importante não seja quanto conseguimos fazer, mas se continuamos alinhadas connosco, enquanto fazemos.


Artigos Recentes